
Ao deixar o Brasil após a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL) repete o caminho do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que viajou aos Estados Unidos dois meses depois de perder a eleição para o petista, em 2022.
Segundo aliados ouvidos pela CNN, Flávio está fora do Brasil. A saída ocorre após o senador ser intimado a entregar seus passaportes à Polícia Federal por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Em 2022, Jair Bolsonaro viajou aos Estados Unidos em 30 de dezembro, dois dias antes do fim de seu mandato. Ainda presidente, ele não participou da cerimônia de posse de Lula nem passou a faixa presidencial ao sucessor.
À época, Bolsonaro ainda não era investigado no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado. A investigação avançou após os ataques de 8 de janeiro de 2023 às sedes dos Três Poderes, em Brasília. O ex-presidente foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão e cumpre a pena em prisão domiciliar.
Flávio, por sua vez, é alvo de dois inquéritos da Polícia Federal e ficará sem mandato pela primeira vez em 24 anos, a partir de fevereiro de 2027. Segundo relatos feitos à CNN, o senador dizia a aliados que corria risco de ser preso.
Aliados têm usado para justificar a saída do senador uma fala de Lula durante o debate da Band, no segundo turno. Na ocasião, o presidente disse que Flávio teria problemas ao deixar o mandato e perder a imunidade parlamentar.
“Que você vai perder imunidade, que te prepare, que você vai perder imunidade e você vai ter problema. Porque a sua vida tem muito inquérito, que agora vai andar. Se os seus amigos não estão deixando andar, agora vai andar”, disse Lula.
O senador foi aconselhado a não deixar o país em uma reunião na tarde de segunda-feira (26) com os principais nomes de sua campanha, no escritório de um de seus advogados, no Lago Sul, em Brasília.
Na avaliação dos aliados moderados, uma eventual prisão do senador logo após a eleição seria ruim para a imagem de Lula no exterior. Por isso, eles acreditavam que nenhuma medida seria tomada contra Flávio.
Os interlocutores também defenderam a moderação e reforçaram que o senador não deveria pedir a anulação da votação. A orientação era seguir com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) por abuso de poder econômico.
Segundo relatos feitos à CNN, Flávio demonstrou irritação com a determinação de Moraes para que entregasse seus passaportes. O senador foi intimado pela Polícia Federal após visitar o pai.
Em vídeo publicado nas redes sociais na tarde de segunda-feira, Flávio relatou a intimação e atribuiu a decisão de Moraes a uma declaração de Eduardo Bolsonaro, feita em 23 de outubro, defendendo que o irmão deixasse o Brasil caso fosse derrotado.
Em entrevista ao podcast americano “CrowderBits”, Eduardo afirmou que seria favorável à saída de Flávio do país em caso de derrota eleitoral. “Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que ele deixe o país com certeza”, disse.
Eduardo também deixou o Brasil e está nos Estados Unidos desde março de 2025. Neste mês, Moraes determinou sua prisão, após o STF condená-lo por coação no curso do processo. O ex-deputado é considerado foragido pela Justiça brasileira.
“Hoje de manhã, fui visitar meu pai, como vocês sabem ele está em prisão domiciliar. E quando eu estava saindo, a Polícia Federal do Lula estava na porta da casa dele, no meio da rua, fui intimado a entregar os meus passaportes e também estou proibido de deixar o país”, disse Flávio no vídeo.
Apesar da derrota presidencial, o PL saiu fortalecido das eleições para o Congresso e os governos estaduais. O partido elegeu 121 deputados federais, terá uma bancada de 28 senadores a partir de 2027 e comandará seis estados.
Investigações
Uma das investigações contra Flávio envolve o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, com recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A PF apura o destino do dinheiro e se parte dos recursos foi utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
O outro inquérito investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz, amigo do senador, por meio de empresas de apostas e plataformas de pagamento. Entre os pontos apurados estão o acesso a uma conta de empresa ligada ao advogado e o custeio de viagens.
Flávio nega irregularidades e afirma manter apenas uma relação de amizade com Willer, que também contesta as suspeitas.



